Onde Maricá precisa de atenção primeiro? (2/3): o mapa que a média esconde
Segunda parte da série sobre o ICST de Maricá (RJ). O índice varia de 30,9 a 96,1 entre os setores censitários, o saneamento é a dimensão mais fraca e as desvantagens formam manchas contíguas. Mapas, bairros e distritos, com um exemplo de cálculo passo a passo.
Neste artigo
No post anterior, montei as peças: quatro dimensões, dez variáveis oficiais, todas na escala de 0 a 100, em que 100 é a melhor situação observada no município. Agora vem a pergunta que interessa: quando juntamos tudo, que Maricá aparece?
O índice em quatro números
- O ICST foi calculado para 447 setores, que reúnem 97,5% da população.
- Ele vai de 30,9 a 96,1 pontos. É uma diferença enorme dentro de um único município.
- A mediana é 69,7 e a média, 68,9, com desvio-padrão de 10,9. A distribuição é aproximadamente simétrica.
- Nos setores urbanos, a mediana é 69,7; nos rurais, 51,7.

Olhe os boxplots à direita. Qual dimensão chama atenção?
A infraestrutura e saneamento (I) é a mais baixa, com mediana de 47,6. A de acesso a serviços (P) tem mediana de 60,0, mas uma dispersão enorme: há setores com 0 e setores com 100. Já a socioambiental (mediana 95,3) e a socioeconômica (mediana 81,7) ficam bem mais altas. Em outras palavras, o que separa os setores de Maricá não é tanto a renda ou a alfabetização. É saneamento e distância.
Também conferi se as variáveis não estavam medindo a mesma coisa duas vezes. As correlações entre variáveis de dimensões diferentes são fracas, o que indica pouca redundância e justifica tratá-las como eixos distintos.
O mapa

Quanto mais escuro, melhor. As melhores condições formam dois núcleos:
- o Centro e os bairros vizinhos do 1º distrito (Mumbuca, Flamengo, Araçatiba);
- o eixo de Inoã e Spar, no 3º distrito, a oeste.
São os lugares onde coincidem rede de água, rede de esgoto e serviços por perto.
As piores condições estão nas franjas rurais e periurbanas do norte e do leste (Silvado, Cassorotiba, Retiro, Vale da Figueira, Jaconé) e em partes extensas do 4º distrito, Itaipuaçu, onde loteamentos densos têm baixa cobertura de esgoto e grande parte dos domicílios fica em área de suscetibilidade alta a inundação.
Por dentro das dimensões
O mapa da infraestrutura explica boa parte do mapa do ICST. Repare que os tons mais escuros quase só aparecem no Centro e em Inoã:

O acesso a pé a serviços mostra outro recorte. Aqui medi, pela rede de ruas, que parte dos domicílios de cada setor chega em até 20 minutos de caminhada (1.500 m a 4,5 km/h) a uma Unidade de Saúde da Família e a uma escola pública com ensino fundamental. O cálculo usou o algoritmo de Dijkstra sobre 4.302 km de vias, partindo de todas as unidades ao mesmo tempo, inclusive as dos municípios vizinhos:

E a dimensão socioambiental mostra onde pesa a suscetibilidade à inundação, com destaque para a orla de Itaipuaçu e as margens do sistema lagunar:

Um ponto importante para ler esse último mapa: suscetibilidade não é risco. A carta do Serviço Geológico do Brasil mostra onde o terreno tende a alagar ou deslizar. Ela não diz a probabilidade de dano a uma casa específica. A suscetibilidade alta a movimento de massa, por exemplo, quase não atinge áreas ocupadas em Maricá: são 0,01% dos domicílios, em apenas três setores.
As desvantagens andam juntas
Você deve ter notado que os setores parecidos ficam lado a lado. Isso tem nome e tem medida: autocorrelação espacial. O I de Moran global do ICST é 0,63 (p = 0,001), e todos os subíndices têm autocorrelação positiva e significativa; o acesso é o mais concentrado (0,72).
A análise local (LISA) encontrou 76 setores em aglomerados Baixo-Baixo (setores com índice baixo cercados de vizinhos também baixos) e 69 em aglomerados Alto-Alto.
Por que isso importa para política pública? Porque desvantagem espalhada pede política para pessoas; desvantagem concentrada pede intervenção por área. Uma extensão de rede de esgoto num aglomerado Baixo-Baixo atende muitos domicílios de uma vez.
Bairros e distritos
Agregando os setores (somando numeradores e denominadores, nunca fazendo média de percentuais), os distritos ficam assim:
| Distrito | População | S | I | A | P | ICST |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 3º Distrito de Inoã | 35.593 | 70,8 | 62,9 | 93,7 | 71,0 | 74,2 |
| 1º Distrito Sede (Centro) | 75.488 | 81,1 | 53,6 | 93,4 | 67,1 | 73,8 |
| 4º Distrito de Itaipuaçu | 59.404 | 85,5 | 45,8 | 82,2 | 48,4 | 67,2 |
| 2º Distrito de Ponta Negra | 22.390 | 75,3 | 33,4 | 88,8 | 56,3 | 63,3 |
Repare em Itaipuaçu: tem o maior subíndice socioeconômico dos quatro distritos (85,5) e, mesmo assim, o terceiro ICST. Quem puxa para baixo são a infraestrutura, o acesso e a inundação. Esse é o tipo de leitura que um índice só com renda nunca daria.
Entre os bairros com pelo menos 500 habitantes:

- Maiores valores: Mumbuca (82,7), Spar (82,5), Centro (81,6), Inoã (80,0) e Araçatiba (78,2).
- Menores valores: Vale da Figueira (48,8), Jaconé (49,9), Morada das Águias (53,3), Bananal (57,0) e Pindobal (59,4).
Os bairros de pior desempenho combinam infraestrutura baixa com acesso deficiente. Nos bairros da orla de Itaipuaçu, pesa sobretudo a suscetibilidade à inundação. Um aviso: Jardim Atlântico Central aparece com asterisco porque o serviço da Prefeitura devolve esse bairro sem geometria. Reconstruí a área como a parte do 4º distrito não coberta pelos demais bairros.
Um índice que dá para conferir na mão
Índice composto tem fama de caixa-preta. Para fugir disso, o artigo detalha o cálculo de três setores reais, escolhidos por critério objetivo: o do percentil 10, o da mediana e o do percentil 90. Para cada variável, mostro o valor bruto, os limites de normalização, o valor normalizado, os pesos e a contribuição ao índice. A soma das contribuições reproduz o ICST do setor, com diferença só de arredondamento.
O gráfico abaixo compara os perfis desses setores, junto com o mínimo e o máximo do município:

Leia as barras da infraestrutura (I): do setor P10 (29,1) ao P90 (69,2), a infraestrutura mais do que dobra. No setor do mínimo (ICST 30,9, um setor pequeno, de 123 moradores), o problema não é um só: socioeconômico 17,3, infraestrutura 23,9 e acesso a serviços a pé igual a zero.
Há também o caso contrário. A soma ponderada permite compensação entre dimensões: 19 setores estão nos dois quintis superiores do ICST mas têm pelo menos uma dimensão no pior decil, quase sempre a socioambiental (setores do Centro e de Ponta Grossa às margens da lagoa) ou a socioeconômica (partes de Inoã e Chácaras de Inoã). Para esses lugares, o índice geral alto não deveria esconder o subíndice crítico.
No último post, transformo o mapa em lista: quais setores são prioritários, quantas pessoas moram neles e por que dá para confiar nessa escolha. E explico por que o Censo diz que 35% dos domicílios têm água da rede enquanto o sistema nacional de saneamento fala em 78%.
