Projeção 2035 — frota elétrica, recarga e flexibilidade no Brasil

Atualização: 26 de setembro de 2026
Escala: Brasil
Fontes principais: Senatran, ABVE e ONS

Este estudo reúne duas bases nacionais de veículos eletrificados e uma referência histórica de carga do Sistema Interligado Nacional (SIN). O objetivo é estimar, sob hipóteses explícitas, como o crescimento da frota recarregável pode alterar a curva horária de demanda e quanto desse efeito pode ser deslocado por gestão da recarga e V2L.

Os resultados são cenários condicionais, e não uma previsão oficial para 2035. A principal variável de interesse é a forma da demanda ao longo do dia: a mesma energia pode produzir efeitos muito diferentes sobre o sistema conforme o horário e o grau de coordenação da recarga.

1. Bases utilizadas

Senatran: estoque cadastral

A referência mais recente disponível na página oficial da Senatran é julho de 2026. A agregação nacional por combustível registra:

Categoria cadastral Registros
ELÉTRICO/FONTE EXTERNA 352.955
ELÉTRICO 32.714
HÍBRIDO PLUG-IN 78.697
ELÉTRICO + ELÉTRICO/FONTE EXTERNA 385.669
As três categorias acima 464.366

Esses números representam registros no Renavam por rótulo de combustível. A planilha não equivale diretamente à classificação tecnológica da ABVE e inclui diferentes tipos de veículo. Por essa razão, o recorte da Senatran é tratado como estoque cadastral exploratório, e não como uma contagem exclusiva de automóveis leves BEV ou PHEV.

ABVE: emplacamentos de veículos leves

Para a ABVE, foram adotados os fechamentos anuais publicados e o acumulado de 2026 disponível por tecnologia.

Período BEV PHEV BEV + PHEV Eletrificados*
2024 61.615 64.009 125.624 177.358
2025 80.178 101.364 181.542 223.912
jan–ago/2026 143.574 117.435 261.009 328.483

* Eletrificados inclui também HEV e HEV Flex. Esses veículos sem tomada não entram no recorte de recarga externa do modelo.

Em 24 de setembro de 2026, a ABVE anunciou que a série acumulada desde 2012 atingiu 1 milhão de veículos leves eletrificados. Esse marco é apresentado como contexto de mercado, mas não é usado diretamente como frota recarregável, pois inclui BEV, PHEV, HEV e HEV Flex.

As bases Senatran e ABVE não são somadas. A primeira mede estoque cadastral; a segunda acompanha emplacamentos de veículos leves por tecnologia.

2. Como a frota é projetada até 2035

O painel oferece três taxas de planejamento — 5%, 12% e 20% ao ano — e uma extrapolação do crescimento histórico. A opção de CAGR histórico é mantida apenas como referência de sensibilidade: em mercados ainda pequenos, taxas passadas muito elevadas produzem valores pouco plausíveis quando estendidas por muitos anos.

Senatran

O valor observado de julho de 2026 é o ponto de partida. Nos cenários de 5%, 12% e 20%, a taxa é aplicada ao estoque líquido cadastral a cada ano.

ABVE

A série é tratada como fluxo de entrada. O estoque de referência de 2026 é estimado a partir das coortes de 2022 a 2025, com baixa técnica hipotética de 1% ao ano, mais a anualização simples dos emplacamentos de janeiro a agosto de 2026. A partir daí, as taxas de 5%, 12% e 20% são aplicadas aos emplacamentos anuais, e não diretamente ao estoque.

A anualização de 2026 é uma hipótese operacional para construir a coorte de dezembro. Ela não deve ser lida como fechamento observado do ano.

3. Trajetórias de referência

BEV

Fonte Cenário 2026 2030 2035
ABVE 5% a.a. 381.986 1.327.645 2.752.744
ABVE 12% a.a. 381.986 1.504.163 3.799.215
ABVE 20% a.a. 381.986 1.736.635 5.574.548
Senatran 5% a.a. 385.669 468.783 598.299
Senatran 12% a.a. 385.669 606.858 1.069.491
Senatran 20% a.a. 385.669 799.723 1.989.967

BEV + PHEV

Fonte Cenário 2026 2030 2035
ABVE 5% a.a. 764.342 2.480.737 5.068.192
ABVE 12% a.a. 764.342 2.801.638 6.970.613
ABVE 20% a.a. 764.342 3.224.258 10.198.064
Senatran 5% a.a. 464.366 564.440 720.384
Senatran 12% a.a. 464.366 730.689 1.287.723
Senatran 20% a.a. 464.366 962.909 2.396.027

As diferenças entre as duas fontes são esperadas: os universos, datas de referência e métodos de contagem não são os mesmos.

4. Modelo de recarga

O cenário-padrão usa as seguintes premissas:

Parâmetro Valor padrão
Frota participante do evento 80%
Energia retirada da rede por sessão 20 kWh
Potência efetiva durante a sessão 50 kW/veículo
Duração equivalente da sessão 24 min
Parcela flexível 100%
Participação no V2L 10%
Potência média substituída pelo V2L 1 kW/veículo
Eficiência do ciclo V2L 85%

A hipótese de 80% é deliberadamente severa. Ela funciona como teste de estresse e não representa uma estimativa observada da simultaneidade real da frota brasileira.

Sem gestão: pico distribuído em três horas

O evento não é concentrado em uma única hora. As chegadas são divididas em três coortes:

No evento noturno, as coortes entram às 18h, 19h e 20h. A energia total consumida pelos veículos permanece a mesma; muda apenas sua distribuição temporal.

Gestão inteligente

A parcela flexível da recarga é deslocada ao longo das 24 horas. O algoritmo favorece horários de menor carga de referência sem alterar a energia total de mobilidade e respeitando o limite agregado de potência.

A função de custo combina a carga resultante do sistema com uma penalização para concentração excessiva da recarga. O parâmetro de distribuição disponível no painel altera o grau de espalhamento, mas não cria nem elimina energia.

5. V2L no bloco de ponta

No modelo, o V2L representa carga local substituída pelo veículo, e não necessariamente exportação comercial para a rede. O parâmetro em kW/veículo deve ser lido como potência média efetivamente abatida da demanda durante o evento, não como potência máxima nominal do inversor do automóvel.

A energia equivalente a uma hora de contribuição por participante é distribuída no mesmo bloco noturno:

A energia necessária para repor a bateria é alocada antes das 18h e corrigida pela eficiência do ciclo selecionada no painel.

6. Exemplo: BEV, cenário intermediário, 2035

Base ABVE

A frota modelada chega a 3,80 milhões de BEV. Com as premissas-padrão, o evento representa 60,79 GWh de energia de mobilidade.

Sem gestão, a contribuição média adicional no bloco noturno é:

Hora Demanda adicional
18h 18,24 GW
19h 24,31 GW
20h 18,24 GW

Com 10% da frota em V2L e 1 kW médio de carga substituída por veículo, a contribuição do V2L é:

Hora Abatimento V2L
18h 0,114 GW
19h 0,152 GW
20h 0,114 GW

O valor relativamente baixo do V2L decorre de duas hipóteses conservadoras: apenas 10% da frota participa e cada veículo substitui, em média, 1 kW de carga. O painel permite alterar os dois parâmetros.

Base Senatran

No mesmo cenário de 12% ao ano, o recorte cadastral chega a 1,07 milhão de registros em 2035. O evento sem gestão adiciona, em média, 5,13 GW às 18h, 6,84 GW às 19h e 5,13 GW às 20h.

Essa diferença não deve ser interpretada como disputa entre fontes. Trata-se de universos estatísticos diferentes aplicados à mesma estrutura de simulação.

7. Como interpretar os gráficos

A curva vermelha mostra a recarga sem coordenação. A curva azul mantém a mesma energia, mas redistribui a parcela flexível para horários de menor carregamento do sistema. A curva verde tracejada acrescenta a contribuição do V2L no bloco 18–20h e contabiliza a energia de reposição.

A comparação relevante não é apenas o consumo diário. O ponto central é a demanda coincidente: concentrar a mesma energia em poucas horas pode elevar substancialmente a potência exigida do sistema; deslocá-la no tempo reduz esse efeito sem necessariamente reduzir os quilômetros rodados ou a energia total consumida pela mobilidade.

8. Limitações

  1. A curva do ONS é uma referência histórica. O estudo não projeta, de forma independente, o crescimento da carga convencional, da geração distribuída, da transmissão ou da distribuição até 2035.
  2. O modelo trabalha em escala nacional. Restrições locais de alimentadores, transformadores, subestações e pontos de conexão exigem estudos específicos.
  3. A potência de 50 kW é uma hipótese de potência efetiva durante a sessão, não uma média medida da frota brasileira.
  4. A disponibilidade individual do veículo, estado de carga, horário de chegada, necessidade de deslocamento e compatibilidade V2L/V2H não são conhecidos veículo a veículo.
  5. A série ABVE usada para coortes não inclui todas as coortes anteriores a 2022. A série Senatran, por sua vez, usa categorias cadastrais que não reproduzem exatamente a taxonomia BEV/PHEV da ABVE.
  6. O cenário de CAGR histórico é uma extrapolação matemática e não deve ser tratado como trajetória provável.

9. Arquivos para reprodução

10. Fontes

Senatran — Ministério dos Transportes. Frota de Veículos 2026, referência mais recente disponível: julho de 2026.
https://www.gov.br/transportes/pt-br/assuntos/transito/conteudo-Senatran/frota-de-veiculos-2026

ABVE — Associação Brasileira do Veículo Elétrico. Fechamento do mercado de eletrificados em 2025, publicado em 6 jan. 2026.
https://abve.org.br/eletrificados-crescem-dez-vezes-mais-do-que-conjunto-do-mercado-em-2025-com-224-mil-veiculos-vendidos/

ABVE. Emplacamentos de agosto de 2026, publicado em 9 set. 2026.
https://abve.org.br/com-57-mil-emplacamentos-em-agosto-eletrificados-abrem-a-corrida-para-o-milhao-em-setembro/

ABVE. Marco de um milhão de eletrificados, anunciado em 24 set. 2026 e publicado em 25 set. 2026.
https://abve.org.br/frota-eletrificada-chega-a-um-milhao-de-veiculos-no-brasil-a-eletromobilidade-ja-e-o-presente/

ONS. Balanço de energia por subsistema — séries usadas em perfis_carga_solar_2025_2026.json.
https://dados.ons.org.br/dataset/balanco-energia-subsistema